sábado, 26 de julho de 2014

Agradeço todos dias aos meus medos, porque na ausência deles, jamais existiria coragem... morrer como um covarde. Não temo o amor tampouco o ódio. Aos que se iludem nos traços do poeta, saibam que a mesma mão que segura a caneta também empunha a espada. Meus versos afiados e subjetivos cantam a tristeza e dilaceram a carne, corta os ossos e semeia  flores, falam sobre rios e montanhas, falam sobre horrores e vingança.  Meus olhos contemplam a beleza do crepúsculo e a destruição natural. Ainda ouço o choro dos inocentes, ainda ouço o meu próprio choro. Que a honra esteja comigo pra versar e pra lutar, que nenhum sangue seja derrubado em vão, e que nenhuma estrofe seja  escrita sem antes ter nascido em minh'alma.
         Agradeço todos dias aos meus medos, porque na ausência deles, jamais existiria coragem.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

imerso

A margem

Meu espírito contrito precipita rio abaixo
Na azáfama de partir...
Mortificado, cansado rende-se.
No silêncio submerso de ilusões
Águas turvas, entorpece, afoga
Decrépito, exausto...
… gira descompassadamente em águas revoltas
indeterminado se entrega...
Fica à mercê de seus sonhos espirituais
Atordoado e desfalecido...
visualiza os sonhos de menino
… estende-lhes a mão,
e os vê virarem de costas.
Afunda de novo...
Se na carne já não sabe
vê uma corda com tantos nós,
Te lembra um rosário...
Um estrépito ao bater num galho
Segura forte seu rosário corda
Vê em suas contas a própria vida
Que calada lhe é devolvida
E na volta cautelosa
Respira...

David 03-01-2014



terça-feira, 31 de dezembro de 2013

MMXIV

Não farei promessas a ninguém
...ainda menos para mim
Vou sonhando desse jeito
silencioso, inquieto
despreocupado com desdém...

destilando utopias vãs,
Sereno ei de estar;
Se tiver um entardecer,
um ventinho devagar,
uns sorrisos de crianças,
um lugar pra descansar...
E um café em minhas manhãs...

Eu, sendo insignificante
tendo uns sonhos delirantes...
o gosto amargo dum cigarro-
uma caneta, um pensamento
e uns livros na estante...

E o tempo varre meu tempo
Minha senda se encurta;
Se nessa vida, eu menti
se no amor não fui atento
sei, tem coisas que não lembro
quais não se apagarão
e as terei pro meu alento...

Não farei promessas...
Da esperança me desprendo.
Sei, na vida não há planos
só quero a calmaria
para usar naqueles dias
quando estou com pressa...


David 31-12-2013

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

céu

Atmosfera
Ah como eu amo o céu...
Toda vez que elevo os meus olhos, vejo quão pequeno sou diante da sua imensidão...
Logo eu, que cheguei a me ver grande...
Não passo de uma fração de carbono, ínfimo!
...suspenso.
As nuvens se moldam, faceiras.
pra tentar te embelezar ainda mais...
...e se desfazem.
Eu também, diante de ti
Como nuvem, me desfaço...
David

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

..--..

Atrofia

Decidi naquela noite morna,
Quando nada mais valia a pena...
Quando eu estava parado, sentado,
Levantar e começar a me mover...
Por entre portas destrancadas.
E escadarias infinitas...
Fixei firmemente o punho no corrimão,
E cada passo parecia mais distante do anterior
Cada passo foi tão único...
Havia milhas e milhas de escadas,
Suficientes para causar a exaustão
Todo espaço era amplo...
Com portas e vidraças por todos lados
Pessoas sentadas nos cafés
Felizes...
Estava aterrorizado pelo significado
Portas sem fechaduras
Mas eu não podia entrar
Quando eu já não tinha forças
Ela apareceu e me pegou pelo braço
Tinha duas vozes saindo de sua boca
Era incompreensível o que falava
Havia duas pessoas conversando em meu cérebro
E nesse momento tudo ficou frio...
Fui puxado e jogado pra trás...
...e percebi o ato em forma de pergunta
Quando foi que você se tornou tão infeliz?
Levanto minha cabeça e vejo uma escada
Recobro a consciência e estou sozinho
Arrasto-me lentamente...
Continuo subindo, subindo
O ar fica fino, sufocante...
...me esforço
até parar de respirar.
E de repente eu vi que estava
do lado de fora, num platô...
Como um sótão...
..sem caixas e sem teto
Posso ver um milhão de telhados daqui
E pude ver a verdade...
...o sentimento,
então fui devorado...
E dentro das mandíbulas da imensidão
Ouvi seus uivos de dor...
e em forma de música
obtive a resposta...
Que sou tão pequeno!
Tão pequeno...
menor que uma estrela...

                                                                                    David 18-10-2013








sábado, 24 de agosto de 2013


O silêncio que precede a chuva

Por favor segure minha mão...
...as vezes tenho medo.
Não existe conforto quando estou longe.
Não me sinto seguro aqui fora.
As folhas flutuam com o vento
O céu se acinzenta lentamente
Sinto um pavor invadir-me...
Evito procurar, chorar...
...sozinho.
Não importa quão assombrado eu esteja...
Quando você está por perto,
Tudo parece ficar bem
Só não solta minha mão...
Posso ver acima da linha dos telhados
Vejo uma senhora tirando as roupas do varal,
...vejo um quintal.
As crianças correm no fim da rua
Uma tela me é posta em preto e branco,
Existem tantos detalhes que meus olhos marejados custam perceber
Eu odeio te ferir tanto assim
E odeio me ferir também
Seus segredos me cegam como nuvens poluídas.
Como a poeira que se assenta com a chuva
Que a verdade floresça em nós.
E as flores cubram a terra...
Tem uma porção de água suspensa no céu
Que nunca cai no deserto.
Viajam a mil pés de altura...
Tão longe e tão dentro de nós.
A vida se vestiu de tempestade
Contínua...ininterrupta.
Tocando meu coração ressequido...
...silenciosamente.  

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Ainda convicto de todas as superfícies ínfimas...

...Como desaparecer completamente?
Hoje eu caminhei sozinho por uma calçada desnivelada, do meu lado direito um muro interminável que se alternava com grades verdes que formavam listras de sombra e luz em meu rosto, desfocando a minha visão. Ora grades, outra muros.
Consegui ver todas as camadas que formavam o momento, entendia o céu cinzento e pálido refletindo sob minhas angustias, os quadrados sem cimento da calçada de onde saiam árvores. Percebia, que mesmo calado, o céu desabava a chorar em mim, e nas árvores. E o vento não levava embora o que estava dentro, pelo contrário, trazia mais coisas de fora.Tinha um poder devastador sobre os papéis organizados em minha mente, nas folhas das árvores e no curso das gotas de chuva. Por algum tempo tentei me equilibrar no meio-fio, mas logo percebi a dificuldade que os efeitos climáticos exerciam sobre mim. Continue próximo ao muro...
Me lembro das pessoas correndo, buscando abrigo da chuva e do frio, e me lembro de desejar congelar. Quando tudo silencia ou quando só se almeja o silêncio, parece que os barulhos mais imperceptíveis se tornam estrondos gigantescos dentro de você. Hoje foi um dia estranho, um dos mais “silenciosamente barulhentos” que já tive.
Ainda convicto de todas as superfícies ínfimas que me cercavam, continuei caminhando sem direção, seguindo os muros e grades como ponto de referência pra um lugar dentro de mim, um lugar que eu não sabia onde ia dar. As marcas na calçada, as árvores, eram como marca páginas, pro caso de querer parar de ler o ambiente, ou de me perder.

Hoje por alguns minutos, eu egoistamente, desfrutei do lado sádico da solidão. E por algum tempo acreditei ter desaparecido completamente...