Alzheimer
Guardo todas as palavras em mim, porque
já se foi o tempo de falá-las.
Guardo o tempo perdido afim de me
arrepender dos passos que nunca dei.
Guardo a visão do céu vermelho na
esperança de um dia tornar a vê-lo.
Guardo aquele cheiro que tanto me
entorpeceu.
Guardo a verdade em mim para os dias
que eu perder o foco.
Guardo as lembranças mais sutis do dia
que vi os raios de sol embaixo d'água.
Guardo a felicidade que é uma faca
contra meu pescoço
Guardo um monte de areia onde construí
pontes e tuneis espiralados.
Guardo aquele abraço em que pude me
perder.
Guardo o caminho que nunca estive
antes.
Guardo tantos saltos impossíveis de
fazer hoje.
Guardo o cheiro da chuva, do ralo e das
flores.
Guardo mágoa, raiva, desprezo.
Guardo admiração e respeito
Guardo o cheiro da fumaça e a alegria
na fogueira.
Guardo seu sorriso que tanto me agrada.
Guardo medos bobos e infantis.
Guardo o frescor da sombra duma árvore
qualquer.
Guardo o gosto dum cigarro.
Guardo um rosto engraçado.
Guardo a tristeza de um palhaço.
Guardo a esperança frágil.
Guardo Deus em um cofrinho com moedas.
Guardo uma fome insaciável por
mentiras que me confortam.
Guardo a terrível porém linda visão
da guerra.
Guardo uma estrela suspensa no nada.
Guardo a música que tenho vergonha de
cantar.
Guardo minha cabeça oca numa sacola de
plástico.
David 29-05-2013
