quarta-feira, 29 de maio de 2013


Alzheimer

Guardo todas as palavras em mim, porque já se foi o tempo de falá-las.
Guardo o tempo perdido afim de me arrepender dos passos que nunca dei.
Guardo a visão do céu vermelho na esperança de um dia tornar a vê-lo.
Guardo aquele cheiro que tanto me entorpeceu.

Guardo a verdade em mim para os dias que eu perder o foco.
Guardo as lembranças mais sutis do dia que vi os raios de sol embaixo d'água.
Guardo a felicidade que é uma faca contra meu pescoço
Guardo um monte de areia onde construí pontes e tuneis espiralados.

Guardo aquele abraço em que pude me perder.
Guardo o caminho que nunca estive antes.
Guardo tantos saltos impossíveis de fazer hoje.
Guardo o cheiro da chuva, do ralo e das flores.

Guardo mágoa, raiva, desprezo.
Guardo admiração e respeito
Guardo o cheiro da fumaça e a alegria na fogueira.
Guardo seu sorriso que tanto me agrada.

Guardo medos bobos e infantis.
Guardo o frescor da sombra duma árvore qualquer.
Guardo o gosto dum cigarro.
Guardo um rosto engraçado.

Guardo a tristeza de um palhaço.
Guardo a esperança frágil.
Guardo Deus em um cofrinho com moedas.
Guardo uma fome insaciável por mentiras que me confortam.

Guardo a terrível porém linda visão da guerra.
Guardo uma estrela suspensa no nada.
Guardo a música que tenho vergonha de cantar.
Guardo minha cabeça oca numa sacola de plástico.


David 29-05-2013

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